• Julio Sa Rego

Um dia no monte: pastor por um dia

Dernière mise à jour : 24 avr. 2020


“Minha alma é como um pastor, Conhece o vento e o sol E anda pela mão das Estações A seguir e a olhar”. (Alberto Caeiro, 1925, poema I)

Penetrei o monte sem saber o que esperar. De pastorícia não conhecia nada além do imaginário construído pelos contos da minha infância. Desenhava-me o pastor a conduzir o rebanho para o cimo da serra, de manhã cedo, ao crepúsculo, sempre à frente com seu cajado e acompanhado de seu fiel cão. Atrás, calmamente, seguiriam as cabras ao ritmo dos chocalhos e da flauta do pastor. “Uma vida tão bonita, que até os santos gostavam dela e os poetas antigos a cantavam! […] O céu por cima, o ar livre, o nascer do Sol visto lá do alto... À noite, as estrelas...” (Ferreira de Castro, A Lã e a Neve, 1947).

A realidade encontrada nessa serra do Alvão, porém, era outra. A harmonia entre o pastor, os cães, as cabras e a paisagem até lá estavam; a beleza dos montes ondulados à perda de vista também se dizia presente; mas os versos dos poetas ofuscados pelo bucolismo esqueciam que a pastorícia era mais um trabalho, como um outro qualquer.


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