• Julio Sa Rego

Terra Quente, Terra Fria: terra de Churras


Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

(Alberto Caeiro, 1925, poema IX)


O outono minguava e o inverno vingava. As peripécias caprinas do verão já eram saudade e de recordação apenas me restavam cadernos de viagem. Olhando de perto, cadernos de viagem parecem um amontoado de grafemas negros rasgando a monotonia de folhas brancas a partir dos quais você se aplica em dar algum sentido. Eu me situava exatamente ali. Estava a puxar, esticar, encurtar, moldar os grafemas para escrever uma narrativa de acesso às terras de pastagens nos baldios para um congresso de estudos rurais, quando o telefone tocou. A conversa foi curta e minha reposta incisiva: SIM! Havia sido convidado para participar num levantamento das práticas da fileira ovina no distrito de Bragança. Poucas semanas depois, lá estava eu, de volta à estrada, rumo a Bragança, só que dessa vez com chapéu, cajado e um pouco mais de prática.


O objetivo do projeto era apreciar a viabilidade técnica e econômica da pastorícia ovina aplicada à prevenção de incêndios florestais. As ovelhas também são cabras... sapadoras. Fora isso, meu conhecimento ovino era bem limitado. O trabalho encomendado circunscrevia-se às raças ovinas autóctones por estarem mais emaranhadas ao ecossistema local e, portanto, mais suscetíveis de contribuir para a restauração da paisagem e a prevenção dos incêndios. No distrito há cinco, todas da família churra: a badana, a bragançana branca e a preta, a mirandesa e a terrincha. Explicaram-me que cada raça tinha suas particularidades alimentares e temperamentais. Eu, infelizmente, tudo que conseguia enxergar naquele momento era que a bragançana branca felpuda transforma-se numa mirandesa que, se lhe tirar os óculos, aparenta-se a uma terrincha que é, por sua vez, uma badana grande; enquanto a bragançana preta, bem, é uma branca só que colorida de preto.


(continue lendo no Jornal a Gazeta Rural)